Jura que não conta pra ninguém? Jura? Promete? Não pode falar nem para o seu travesseiro. Nem para o cachorro. Muito menos pra sua mãe. Ah, quer saber? Melhor eu não contar mesmo.
Tem um segredinho guardado? Então ouve isso aí com os olhos fechados, abraçando um ursinho de pelúcia.
Amor, o pó de café acabou. Fiz o suco de laranja sem gelo e sem açúcar porque é melhor assim. Não tinha pão, mas eu busquei na padaria da Clodomiro e trouxe. Quando eu passei a margarina ele ainda estava quentinho. Esquentei leite e preparei um chocolate também, se bem que agora deve estar frio, assim como o pão.
As minhas coisas já estão dentro do carro e eu acho que não esqueci nada, apesar de ter certeza de que você vai me ligar pra eu voltar e buscar uma coisa ou outra. Talvez eu não volte. Vai depender do que ficou. Mas isso a gente vê depois.
Eu sei que é meio chato sair assim, sem uma despedida de verdade. Você vai me chamar de covarde, eu sei, e até acho que sua mãe vai me ligar. Não tem problema. Eu continuo achando que é melhor assim. Que despedida física numa hora dessas nunca ajuda.
Você deve estar com a sobrancelha direita apontada pra cima, falando pra si que uma despedida física era o mínino que a gente poderia ter e que seria até melhor pra gente superar o fim. É que eu acho que o nosso fim já foi e a gente nem percebeu. Ele dormiu debaixo do nosso cobertor e tomou café com a gente todos os dias. Ele estava lá comigo, me matando bem quietinho feito um cigarro amigável, enquanto você se bastava em algum lugar.
Mas eu não quero brigar, amor. Vou guardar o que eu preciso pra continuar a minha vida. O que faz mal eu deixo na rua: se alguém quiser pode levar. Já não está fácil, então eu quero fazer o máximo deixar o coração em paz.
Em cima da geladeira está a minha parte do aluguel e do resto das contas. A chave da porta é a única que eu tenho: vai ficar dentro do terceiro vasinho. Dá um beijo no Cortiça quando ele acordar. E se cuida. E não esquece de comprar pó de café.
Vai, esse papo de errar-é-humano não passa de balela. Sim, todo mundo erra, mas não quer dizer que errar é ok. Que tudo bem. Quem erra ganha uma culpa de presente e vai ter que aprender a conviver com isso. Acontece. É humano.
Bem que o seu carro poderia estar andando. Mas, para isso, o carro da frente precisaria estar andando também, bem como o da frente dele e por aí vai. É a terceira vez na semana e, vamos combinar, hoje você não precisava de um congestionamento. Mas ele está lá plantado no meio do caminho, enraizando você também.
Vai gritar? Grita, só não buzina. Se você é daqueles que já aprendeu que nessas horas não adianta ficar enfezado, ligue o ar condicionado e deixe a trilha mágica aliviar a tensão.
Gica e seus amigos acreditam que existe uma trilha para tudo nessa vida. Se você gostar de alguma, pode pegar porque, no fim das contas, todo mundo vai dançar mesmo. Ah, esse não é mais um blog de crítica musical.